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Sinopse: Seja marginal, seja herói: é a revolução em sua legítima razão | Império Serrano 2027

Foto do escritor: Jefferson Brunner
Jefferson Brunner
9 de set.
6 min de leitura

JUSTIFICATIVA

Em 2027, o GRES Império Serrano completa 80 anos de existência. Ao longo de sua trajetória, a escola construiu narrativas potentes que têm como eixo central a luta pelas liberdades, pela soberania democrática e pela igualdade. Enredos emblemáticos como “Heróis da Liberdade” (1969), “Eu Quero” (1986) e “Verás que um Filho Teu Não Foge à Luta” (1996) demonstram como o Império Serrano sempre soube aliar sua força popular a um discurso politizado, colocando no centro do desfile a luta por direitos, justiça social e dias melhores.


O ano de 2027 também marca os 90 anos da União Nacional dos Estudantes (UNE). Fundada em 1937, no Rio de Janeiro, a UNE se consolidou como a principal entidade representativa dos estudantes universitários brasileiros, atuando historicamente na defesa da educação pública, dos direitos estudantis e da democracia. Sua presença foi decisiva em momentos-chave da história nacional, como na campanha “O petróleo é nosso”, na década de 1950, e na resistência à ditadura militar (1964–1985), período em que foi colocada na ilegalidade e teve sua sede incendiada. Com a redemocratização, a UNE se reorganizou e retomou seu protagonismo no debate público, mobilizando gerações de estudantes em pautas educacionais, sociais e democráticas, mantendo-se como um dos principais espaços de articulação do movimento estudantil no Brasil.

A atuação da UNE sempre esteve profundamente ligada à cultura. A entidade utilizou, ao longo de sua história, a arte como instrumento de formação política, crítica social e resistência democrática. Desde cineclubes, bienais e festivais até publicações e debates, essa dimensão cultural ganha destaque com a criação do Centro Popular de Cultura (CPC), no início da década de 1960, que buscava aproximar estudantes e classes populares por meio do teatro, da música, do cinema e da literatura engajada, entendendo a cultura como campo estratégico de disputa simbólica e política.


UNE e Império Serrano compartilham, em seus DNAs, a ânsia de contestar poderes hegemônicos por meio da força da juventude e da cultura. Ambos constroem suas trajetórias a partir da luta por direitos, da afirmação das liberdades e, sobretudo, da liberdade de ser. Para o Carnaval de 2027, o GRES Império Serrano, o eterno Menino de 47, se alia à UNE e à juventude brasileira para, por meio das expressões artísticas da Contracultura, apresentar um manifesto de contestação às hegemonias, em defesa da liberdade de expressão, da soberania democrática e dos direitos universais.


O movimento de Contracultura emerge sobretudo nas décadas de 1950 e 1960, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, como uma reação aos valores dominantes da sociedade industrial, ao consumismo exacerbado, ao autoritarismo político e ao conservadorismo cultural do pós-guerra. Jovens, estudantes, artistas e intelectuais passaram a defender novas formas de viver e pensar, valorizando a liberdade individual, a crítica às hierarquias tradicionais, a experimentação artística e a rejeição de padrões sociais rígidos. A Contracultura se manifestou intensamente na música, na literatura, no cinema e nas artes visuais, tornando-se um poderoso instrumento de questionamento do status quo e de afirmação de identidades dissidentes.


No Brasil, a Contracultura ganha contornos ainda mais significativos durante a ditadura militar (1964–1985), ao oferecer formas simbólicas de resistência em um contexto marcado pela censura e pela repressão política. Movimentos como o Tropicalismo, a poesia marginal, o Cinema Novo e as renovações no teatro (Teatro do Oprimido e Teatro Político) incorporaram elementos contraculturais ao criticar o autoritarismo, os valores conservadores e a ideia de um progresso imposto. Mesmo sem se restringir à militância política direta, a Contracultura ampliou horizontes estéticos, estimulou o pensamento crítico e ajudou a consolidar valores democráticos que ecoam nas gerações seguintes.

Assim, por meio do enredo “Seja Marginal, Seja Herói - A revolução em sua legítima razão”, o GRES Império Serrano, tendo como fio condutor os movimentos contraculturais e a potência dos movimentos estudantis, apresenta um manifesto em defesa da liberdade de expressão em suas múltiplas formas artísticas. Aliado à força da juventude organizada, o Império reafirma seu papel como instituição cultural cuja razão de ser é a defesa do seu povo, da democracia, da igualdade e da vanguarda.


O título do enredo retoma a frase “A revolução em sua legítima razão”, trecho do samba “Heróis da Liberdade”, censurado durante o regime militar, reparando uma agressão histórica à liberdade de expressão e reafirmando que o Império Serrano e o carnaval das escolas de samba são potentes expressões culturais na luta pela soberania democrática. Ao ecoar essa memória, reforçamos que escolas de samba, estudantes, juventudes, artistas e todos aqueles que lutam por igualdade de direitos seguem sendo, ontem, hoje e sempre, Heróis da Liberdade.

 

SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI - A REVOLUÇÃO EM SUA LEGÍTIMA RAZÃO

“Eu não tenho culpa de retratar a história.

Não fui eu que a escrevi.”

Silas de Oliveira


SINOPSE

Pelo fim da tirania e do medo que atravessou ditaduras, perseguições, censuras, porões e exílios.


Pelo fim da violência que tentou reduzir nossos sonhos a cinzas. Incendiaram arquivos, bandeiras e livros na ilusão de que o fogo pudesse silenciar ideias. Levaram companheiros, perseguiram vozes. Tentaram sufocar a nossa sede de liberdade.

Mas esqueceram que o conhecimento não arde nas chamas e nem a memória se rende à fumaça. Das ruínas do velho prédio na Praia do Flamengo ergueu-se ainda mais forte a centelha da resistência. Porque a chama da revolução jamais será apagada pelo ódio.

Não passaremos mais noites e dias entre o lamento e a agonia. Das ruas, das salas de aula e grêmios estudantis, dos palcos e terreiros, dos cineclubes e barracões ergueremos trincheiras pela liberdade. Somos corações de estudante pulsando pelo mesmo ideal. Nenhuma força será capaz de silenciar uma juventude que aprendeu a sonhar de olhos abertos.


Por tantos Josés com sobrenome Silva, representando milhões de brasileiros que constroem este país. Herdeiros daqueles que lutaram e espelho para os que ainda virão. Não deixaremos esquecer que a democracia foi construída por pessoas que tiveram coragem de resistir e se organizar. Exaltemos aqueles que não aceitaram o papel de figurantes da própria história.


É preciso recriar o mundo. É preciso fazer arte!


Não basta repetir a velha antropofagia de salão. É tempo de reantropofagia: tomar de volta a palavra, o corpo e o canto. Fazer o Brasil pensar o Brasil por si mesmo. Transfigurar Woodstock, Berkeley, Cuba e o Maio de 68 em subúrbio, favela e terreiro, em cinema, teatro e samba. É tempo de contestar os valores e os padrões da sociedade dominante.


Reantropofagizar é fazer o Brasil se olhar pelo avesso. É transformar dores em linguagem. O Brasil jamais será cópia de outras revoluções. O Brasil inventa sua própria febre. É necessário fazer mais que cultura. É necessário fazer contracultura.


Censura não cala a arte. É preciso estar atento e forte! É proibido proibir!


Ergueremos novamente os Centros Populares de Cultura. Estenderemos o banquete crítico de O Rei da Vela. Invocaremos o Teatro Experimental do Negro. Convocaremos o Teatro de Arena, a palavra coletiva, o riso feroz, a cena em transe e a dramaturgia que fez do palco, trincheira. Penduraremos versos de Gullar nos muros, para que o povo reconheça na poesia, a real dimensão da desigualdade social. 


Uma, duas, cinco vezes favela! Faremos Cinema Novo para expor as feridas que o Brasil tentou esconder. Câmera na mão, ideia na cabeça. O povo no centro do quadro. Se a terra estiver em transe faremos dela, denúncia. E a música, nossa forma antiga de desobediência, atravessará fronteiras. Escreveremos nas entrelinhas cantando a desordem do mundo. Transformaremos a nossa voz em tempestade.


Que a juventude transviada, marginalizada pelo sistema, seja a heroína da nação. Se questionar a opressão é ser chamado de baderneiro, então que sejamos baderneiros com orgulho. Para ser marginal é preciso ser herói.


A liberdade floresce nos subúrbios, ecoa nos terreiros e caminha pelas páginas vivas da história do nosso povo. Habita em cada voz que canta e em cada corpo que resiste enquanto o medo insiste em tombar.


A liberdade é teimosia! Renasce da memória dos que se foram. Cresce na luta dos que permaneceram. Encontra abrigo onde houver gente disposta a transformar o mundo.

Desceremos o morro de cara pintada caminhando e cantando, como bandeiras vivas, vestindo os parangolés de Hélio.


Faremos passeata. Faremos carnaval.Faremos do desfile, manifestação.


Transformaremos a avenida em território político da alegria. Desfilaremos para exaltar nossos heróis que desapareceram.  Em procissão, reivindicaremos nossos direitos. Cantaremos em coro os versos que atravessaram fronteiras e exílios, transformados por Ferreira Gullar em hino nacional como manifesto de resistência:


“Essa brisa que a juventude afaga

Esta chama que o ódio não apaga

Pelo universo é a evolução

Em sua legítima razão


São noventa anos de uma juventude organizada que une o Brasil em defesa dos direitos, da democracia e da liberdade. São oitenta anos de um menino de 47, nascido para lutar. Cantando, transformando o samba em voz popular e a avenida em território de resistência. A Juventude e o Império Serrano se aliam para fazer um samba-enredo-manifesto pela liberdade.


Ontem, chamados de marginais, subversivos e baderneiros.           

Hoje, heróis de uma nação. Seguiremos vivendo. E por que não?

Porque a liberdade já raiou. É a revolução em sua legítima razão.


Enredo, pesquisa e texto: Emanuelle Rosa, Jorge Sant’Anna e Renato Esteves.

Revisão e edição:Jefferson Brunner

Carnavalesco: Renato Esteves.

 
 
 

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